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Trilogia · Parte 2 de 3

Enquanto reitores debatem ferramentas, o Papa já fala em formação humana.

Inácio Feitosa Ago 2026 6 min de leitura

No primeiro artigo desta série, tratei da diferença entre encíclica e nota doutrinal, e de como o perfil de cada Papa — Leão XIII na Rerum Novarum (1891), Francisco na Antiqua et Nova (2025) e Leão XIV na Magnifica Humanitas (2026) — ajuda a explicar o tom de cada documento. Encerrei apontando que, assim como existe uma hierarquia de quem fala sobre IA dentro da Igreja, o mundo real está construindo uma hierarquia equivalente entre quem controla a inteligência artificial e quem é apenas controlado por ela. É essa reflexão que agora trago para dentro da sala de aula.

Quando se fala em inteligência artificial na educação, a discussão costuma se fixar no que é mais visível: o aluno que usa IA para fazer a tarefa, o professor que precisa recriar métodos de avaliação, a instituição que corre atrás de ferramentas e políticas de uso. São preocupações legítimas, mas superficiais diante do que os documentos apontam como o verdadeiro risco.

Um risco formativo, não apenas tecnológico

A Antiqua et Nova já havia sido incisiva nesse ponto: a inteligência artificial pode melhorar o acesso ao conhecimento, mas também pode levar à perda do hábito de desenvolver pensamento crítico. Não se trata de um risco tecnológico, mas de um risco formativo. O que está em jogo não é apenas o que o aluno aprende, mas como ele aprende a pensar — e se ainda aprende a pensar, ou apenas aprende a obter respostas.

A Magnifica Humanitas aprofunda essa preocupação ao alertar que a rapidez e a simplicidade com que hoje se obtém orientações, processamentos complexos e formas de assistência simplificam a vida, mas também podem nos habituar a delegar em demasia, enfraquecendo a capacidade de formar opinião própria e de criar. A ferramenta que resolve o problema por nós nos poupa tempo, mas, se usada sem mediação pedagógica, nos poupa também do esforço que constrói o raciocínio. E raciocínio não se transfere — se constrói.

A técnica não é neutra — e a escola não pode fingir que é

Um dos pontos mais importantes da Magnifica Humanitas é a afirmação de que a tecnologia não é neutra, pois assume o rosto de quem a concebe, financia, regula e utiliza. Trago essa ideia para o campo educacional porque ela desmonta um discurso comum nas instituições de ensino: o de que basta “adotar a ferramenta” e regular seu uso disciplinarmente, como se a IA fosse um recurso qualquer, equivalente a uma calculadora ou a um projetor.

Não é. Uma ferramenta que gera texto, argumenta, sugere caminhos e simula raciocínio carrega, embutida, uma determinada visão de mundo — os dados com que foi treinada, os interesses de quem a desenvolveu, os vieses que carrega. Se a escola não assume essa não neutralidade como ponto de partida, corre o risco de formar estudantes tecnicamente competentes no uso da ferramenta, mas incapazes de questioná-la.

O risco da concentração e a desigualdade educacional

Outro ponto que costuma escapar do debate pedagógico é o alerta recorrente sobre a concentração do poder tecnológico. A Antiqua et Nova já apontava que o fato de a maior parte do poder sobre as principais aplicações de IA estar concentrado nas mãos de poucas empresas suscita preocupações éticas significativas. A Magnifica Humanitas vai além, insistindo que as tecnologias não podem se concentrar nas mãos de poucos, sob pena de alimentar a disparidade entre os incluídos e os excluídos.

Para quem atua na educação, essa não é uma preocupação abstrata. Basta olhar para o Nordeste, região que ainda concentra os maiores índices de população adulta sem Ensino Médio completo no país: enquanto escolas particulares de grandes centros já incorporam IA generativa como parte do currículo, boa parte da rede pública do interior segue sem sequer garantir acesso regular à internet em sala de aula.

Opinião do autor

É aqui que quero registrar, com todas as letras, uma convicção que tenho amadurecido: cada era definiu sua própria forma de riqueza e, consequentemente, sua própria forma de desigualdade. Já foi a terra, já foi o sal, já foi o petróleo, já foi o conhecimento acumulado. Estamos diante de uma nova moeda, que não é nenhuma dessas — é o domínio sobre uma inteligência que não é humana, mas que decide cada vez mais sobre o que é humano: quem tem crédito, quem tem emprego, quem tem voz, quem é ouvido, quem é avaliado.

E percebo que essa desigualdade se manifesta em duas camadas, não em uma só. Há os que não têm acesso algum à IA — a exclusão digital que já conhecíamos — e há um segundo grupo, talvez ainda mais silencioso, que usa a tecnologia todos os dias sem nunca ter qualquer controle sobre como ela decide a seu respeito. Esse segundo grupo tende a crescer mais rápido que o primeiro, e é sobre ele que a educação de hoje precisa se debruçar com urgência: não basta ensinar a usar a ferramenta, é preciso ensinar a compreender — e a questionar — quem a controla.

Formar para o discernimento, não apenas para o uso

A resposta educacional adequada à IA não é a proibição nem a adoção acrítica, mas a formação para o discernimento. Não basta inserir “uma aula sobre IA” na grade. É preciso formar a capacidade de distinguir entre informação e verdade, entre resposta pronta e compreensão construída, entre delegar uma tarefa e abrir mão do próprio julgamento.

Mas nem tudo nesses documentos é consenso — nem mesmo entre quem compartilha a mesma preocupação de fundo. No terceiro e último artigo desta série, trato das críticas que a Magnifica Humanitas recebeu e do que, apesar delas, permanece como núcleo irredutível dessa reflexão — inclusive sobre o que pode acontecer ao mundo do trabalho se essa desigualdade de dois níveis continuar avançando sem freio.

Inácio Feitosa

Advogado, mestre em Educação pela UFPE e escritor. Conheça a trajetória →

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