Artigos e Insights

Trilogia · Parte 3 de 3

A IA não vai esperar sua instituição decidir o que fazer com ela.

Inácio Feitosa Ago 2026 7 min de leitura

Nos dois primeiros artigos desta série, percorri a diferença entre encíclica e nota doutrinal, o modo como o perfil de cada Papa — Leão XIII, Francisco e Leão XIV — molda o tom da Rerum Novarum (1891), da Antiqua et Nova (2025) e da Magnifica Humanitas (2026), e o que esses documentos revelam sobre o risco formativo da inteligência artificial na educação. Também deixei registrada uma convicção que venho amadurecendo: a de que a IA está criando uma nova forma de riqueza — e, com ela, uma nova e mais profunda forma de desigualdade. Fecho a trilogia levando esse raciocínio ao seu ponto mais crítico: o mundo do trabalho.

O que dizem os críticos

Há quem critique a Magnifica Humanitas por ser, em certos trechos, excessivamente cautelosa diante da magnitude da transformação em curso — por não enfrentar, por exemplo, o debate sobre inteligência artificial geral e seus riscos de maior escala, tema que a própria Antiqua et Nova, como vimos no primeiro artigo, havia tocado com mais precisão apesar de sua hierarquia formalmente menor. Há também quem considere que o documento perdeu a oportunidade de ser mais incisivo na cobrança de responsabilidade das grandes empresas de tecnologia, tratando problemas já conhecidos — viés algorítmico, consumo de água e energia, soberania de dados — com mais ênfase do que as questões mais urgentes sobre o futuro do trabalho em larga escala.

Outra frente de crítica vem de setores mais conservadores, que consideram que a encíclica perdeu a chance de ser mais contundente na defesa da centralidade humana diante da técnica, preferindo um tom conciliador que, para esses críticos, dilui a força profética que o momento exigiria — exatamente o perfil de moderação de Leão XIV que descrevi no primeiro artigo desta série.

Por que essas críticas não desqualificam o documento

Essas críticas não invalidam o valor formativo do texto — pelo contrário, reforçam algo que também é próprio da tradição educacional que discuti no segundo artigo: nenhum documento, por mais solene que seja, substitui o debate público e o exercício constante do senso crítico. É irônico, e ao mesmo tempo coerente, que um texto sobre os riscos de delegarmos demais nosso raciocínio às máquinas deva ser lido, ele próprio, de forma crítica e não como palavra final.

Opinião do autor

E é justamente nesse ponto que quero deixar minha posição mais clara. Entre os assuntos que os próprios documentos da Igreja tratam com cautela, ou nem sequer chegam a nomear com a radicalidade que merecem, está a precarização do trabalho que decorre diretamente dessa nova forma de riqueza que venho descrevendo nesta série. Não se trata apenas de automação substituindo postos de trabalho — isso já aconteceu em outras revoluções tecnológicas e, historicamente, criou novos empregos à medida que destruía antigos. O que muda agora é a velocidade e a assimetria: quem controla a inteligência artificial dita o ritmo da transição, e quem depende dela para trabalhar — motorista de aplicativo, atendente avaliado por algoritmo, profissional liberal competindo com geração automática de conteúdo — não tem poder de negociação sobre as regras do jogo. É a mesma assimetria que a Rerum Novarum denunciava entre patrão e operário em 1891, mas agora sem sequer a possibilidade de organização sindical clássica, porque o “patrão” é, cada vez mais, um sistema, não uma pessoa ou uma empresa identificável com quem negociar.

Minha convicção é que essa divisão — entre quem domina a inteligência artificial e quem é dominado por ela — tende a se tornar o eixo central da desigualdade do nosso século.

...ultrapassando em relevância a clássica divisão entre capital e trabalho, porque cria uma assimetria de outra natureza: não apenas econômica, mas cognitiva e decisória. Quem controla os modelos decide não só quem ganha mais, mas quem tem sua realidade avaliada e, em boa medida, decidida por sistemas que a maioria da população jamais entenderá em profundidade suficiente para contestar. Isso não significa que a solução seja rejeitar a tecnologia — nem os documentos da Igreja defendem isso, nem seria realista. A resposta está exatamente no que venho defendendo ao longo desta série: sem democratização real do entendimento crítico sobre como esses sistemas funcionam — não apenas do acesso técnico a eles —, o mundo caminha para uma nova aristocracia, cuja riqueza não se mede em terra, sal, petróleo ou capital financeiro, mas em capacidade de programar, treinar e controlar aquilo que decide pelos outros.

O que fica: uma questão de dignidade, antes de tecnologia

Se há um fio que une os três documentos percorridos nesta série, é a insistência em colocar a dignidade da pessoa humana como critério de avaliação de qualquer transformação técnica ou econômica. Isso vale para o trabalhador de 1891 tanto quanto para o profissional e o estudante de hoje, e vale, sobretudo, para quem corre o risco de se tornar apenas objeto de decisão de um sistema que não escolheu e não compreende.

Conclusão da trilogia

O desafio real não é rejeitar a inteligência artificial, nem adotá-la sem crítica, mas usá-la como instrumento — nunca como substituto — do que há de mais humano em qualquer atividade: o encontro, o diálogo, a formação do juízo próprio e a construção de sentido. Os três documentos que percorri nesta série — a Rerum Novarum, a Antiqua et Nova e a Magnifica Humanitas — mostram que a Igreja tenta, com maior ou menor precisão a cada momento, lembrar algo que vale para qualquer leitor, religioso ou não: toda grande revolução tecnológica é, antes de tudo, um teste sobre o que decidimos preservar como humano — e sobre quem terá o poder de decidir isso pelos demais.

Inácio Feitosa

Advogado, mestre em Educação pela UFPE e escritor. Conheça a trajetória →

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