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Trilogia · Parte 1 de 3

O Vaticano tem uma hierarquia para falar sobre IA. Sua universidade tem?

Inácio Feitosa Ago 2026 5 min de leitura

Nos últimos anos, a Igreja Católica produziu três documentos que, lidos em conjunto, formam uma espécie de tríptico sobre tecnologia, trabalho e dignidade humana: a Rerum Novarum (1891), a Antiqua et Nova (2025) e a Magnifica Humanitas (2026). Este é o primeiro de três artigos em que proponho atravessar esses textos — não como teólogo, mas como advogado e educador que vê, todos os dias, a sala de aula e o mundo do trabalho sendo redesenhados pelas mesmas forças que esses documentos tentam endereçar.

Antes de entrar no conteúdo, porém, é preciso entender o que cada documento é, de fato — porque nem todo pronunciamento do Vaticano tem o mesmo peso, e essa diferença muda como devemos lê-los.

O que é uma encíclica

A encíclica é o instrumento de maior peso no magistério ordinário do Papa. É assinada pessoalmente por ele, dirigida a toda a Igreja — e, cada vez mais, também “a todas as pessoas de boa vontade” — e expressa diretamente sua autoridade e seu pensamento. É a categoria da Rerum Novarum, de Leão XIII, e da Magnifica Humanitas, de Leão XIV: um pronunciamento papal direto, solene e programático, que tende a indicar um caminho a seguir.

O que é uma nota doutrinal

Já a nota doutrinal, como a Antiqua et Nova, é produzida por um Dicastério — no caso, o da Doutrina da Fé em conjunto com o da Cultura e Educação — e apenas aprovada, não assinada, pelo Papa. Sua função é mais técnica e instrutiva: mapear um problema, oferecer critérios de discernimento, preparar terreno doutrinário, sem o mesmo peso formal de um pronunciamento papal direto.

Essa diferença hierárquica produz um efeito curioso, que retomarei no terceiro artigo desta série: parte da crítica especializada considera que a Antiqua et Nova — hierarquia formalmente menor — foi mais precisa sobre riscos como a inteligência artificial geral do que a própria Magnifica Humanitas, texto de maior autoridade formal dos três.

O perfil de cada Papa importa

Essa diferença de tom não nasce por acaso: reflete também quem assina — ou aprova — cada texto, e o momento ideológico de cada pontificado.

Leão XIII, autor da Rerum Novarum, é lido pela historiografia como fundador da Doutrina Social da Igreja moderna: um reformador para os padrões de sua época, que buscou uma espécie de terceira via entre o capitalismo liberal e o socialismo emergente, sem romper com as estruturas doutrinárias tradicionais.

Francisco, sob cujo pontificado foi aprovada a Antiqua et Nova, tem um perfil majoritariamente descrito como progressista e pastoral, com forte ênfase na justiça social, na crítica ao capitalismo desregulado e na atenção às periferias. Esse traço aparece com clareza na nota: concentração de poder em poucas empresas, vigilância digital e risco às populações mais vulneráveis são tratados com linguagem direta.

Leão XIV, autor da Magnifica Humanitas, tem um perfil mais disputado. As análises convergem para um retrato de moderação: primeiro papa norte-americano, agostiniano, com quase duas décadas de atuação pastoral no Peru, descrito como conciliador entre alas conservadoras e progressistas — mais conservador que Francisco em temas de moral e família, mas dando continuidade à agenda social do antecessor.

Opinião do autor

Chamo atenção para essa arquitetura de autoridade — quem assina, quem apenas aprova, quem tem a palavra final — porque ela me parece uma metáfora precisa para o problema mais amplo que pretendo desenvolver nesta série: assim como dentro da Igreja existe uma hierarquia clara sobre quem tem poder de fala e de decisão sobre um tema como a inteligência artificial, o mundo real está construindo, silenciosamente, uma hierarquia equivalente — só que sem magistério, sem consulta e sem apelação.

De um lado, um número reduzido de atores que concebem, treinam e controlam os sistemas de IA; do outro, a imensa maioria que apenas os usa, ou pior, é usada e avaliada por eles, sem nunca ter assento na mesa em que as regras foram escritas. Essa é, a meu ver, a desigualdade mais decisiva do nosso tempo — e vou desenvolvê-la ao longo dos próximos dois artigos.

No próximo texto desta série, deixo de lado a arquitetura institucional dos documentos e entro no que, para mim, é o ponto mais urgente: o que esses três textos, lidos em conjunto, têm a dizer sobre o futuro da educação diante da inteligência artificial — e sobre quem ficará de fora dela.

Inácio Feitosa

Advogado, mestre em Educação pela UFPE e escritor. Conheça a trajetória →

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