Toda a minha família é de Monteiro, e é lá que estão as minhas raízes. Mas a minha admiração pela cidade de Sumé sempre esteve presente na minha vida. Não só pela beleza natural do município, nem só pelo perfil empreendedor que sempre vislumbrei na cidade, mas também pelas lembranças das festividades que existiam por lá no meu tempo de adolescente e pela força pujante do seu povo.
Quando eu era menino, passar por Sumé era um pequeno acontecimento. Eu olhava pela janela e as coisas iam ficando na memória: as belas pedras, a arquitetura das casas e dos prédios, as serras do Cariri desenhando o horizonte. Nunca passei por ali sem reparar. Havia na cidade uma personalidade que eu ainda não sabia nomear, mas que me chamava a atenção.
Voltei muitas vezes, já adulto, e hoje Sumé me chama por outro motivo. O que o menino via na paisagem, o homem enxerga na gente. É a alma empreendedora dessa cidade, e quero contar de onde ela vem.
Uma emancipação conquistada, não recebida
Tudo começou em 1903, quando Manuel Augusto de Araújo fundou a povoação de São Tomé, na beira do rio Sucuru. Um lugarejo no semiárido, com pouca água e muita vontade, e isso já é meio caminho andado para quem quer empreender. O nome que a cidade carrega hoje é herança indígena e quer dizer aquele que ensina a cultivar a terra. Por muitos anos Sumé foi distrito de Monteiro, a minha terra de raízes, até que, em 1951, conquistou a sua emancipação. Não ficou esperando favor: foi atrás do que era seu.
Do gado à pedra azul
E nunca parou de se reinventar. Teve o tempo do gado, da mandioca, do açude que fez a agricultura florescer. Quando a seca apertou, o povo não desistiu: apostou nas cabras. Hoje o rebanho de Sumé é um dos maiores do Cariri, numa Paraíba que lidera o país na produção de leite de cabra. E tem a pedra! O granito azul de Sucuru, tão raro e bonito, já viajou o mundo. A jazida principal está parada hoje, mas a lembrança fica: onde muita gente só enxergava aridez, o sumeense enxergou azul.
Isso vale também para a educação. A universidade federal que funciona na cidade não caiu do céu: nasceu da mobilização do povo, que foi para a rua em 2006 pedindo um campus. Hoje uma cidade de 17 mil habitantes forma engenheiros, cientistas sociais e agroecólogos. É assim que o futuro se constrói no interior.
A semente do empreendedorismo
E é aqui que Sumé me conquista de vez. Eu vejo ali uma sociedade muito desenvolvida nos negócios e no comércio, na medida do seu tamanho, com gente engajada e uma vida educacional intensa. Os cadastros de empresas contam mais de mil negócios ativos, quase metade deles de microempreendedores individuais. Os números só confirmam o que sinto: Sumé tem a semente do empreendedorismo no coração de cada um dos seus cidadãos.
Ninguém mostra isso melhor que Paulo Braz. Nascido em Sumé, ele chegou ao Recife no Natal de 1969, aos 15 anos, com duas mudas de roupa, para morar na casa de um tio que mal conhecia. Foi psicólogo, concursado do Banco Central, e um dia deixou tudo para fazer festa. Comandou sete casas noturnas, produziu mais de 21 réveillons e ajudou a reerguer o Recife Antigo. Hoje é considerado o rei da noite recifense. Um menino do sertão que transformou uma cidade triste em cidade de festa.
A cultura sumeense também está nesse jeito de fazer. É a terra de Zé Marcolino, cujas músicas, como “Sala de Reboco” e “Fazenda Cacimba Nova”, ganharam o Brasil na voz de Luiz Gonzaga. É a terra do jornalista Jotabê Medeiros, autor da biografia de Belchior. Tem repentista, tem forró, tem um São João que enche a cidade de gente.
Onde a cultura valoriza quem faz, onde o poder público apoia, onde a escola ensina, o medo de empreender diminui. Se existe um lugar que prova isso, é Sumé.
Retribuindo o que Sumé me ensinou
Por acreditar em Sumé, quero retribuir. Nos próximos meses estarei na cidade para lançar o meu livro. Em meu livro Poder das Mulheres Empreendedoras, o tema que me move encontra uma cidade pronta para ouvi-lo. Na oportunidade, vou oferecer ao município, de forma totalmente gratuita, um curso de empreendedorismo feminino, sem nenhum custo para a prefeitura. E vou oferecer também 30 bolsas de estudo 100% gratuitas de Educação de Jovens e Adultos, para moradores de Sumé maiores de 18 anos que ainda não concluíram o ensino médio, também sem nenhum custo para o município. Concluir os estudos abre portas, e quantos futuros empreendedores não estão esperando por esse diploma?
E não posso terminar sem parabenizar quem cuida da cidade neste momento. O prefeito Manezinho Lourenço e sua equipe vêm colhendo bons frutos. O Sumé Hub de Negócios ficou em segundo lugar no estado no Prêmio Sebrae Prefeitura Empreendedora 2026, e a educação ganhou o Selo Ouro de alfabetização: segundo a prefeitura, o percentual de crianças do 2º ano lendo e aprendendo no nível desejado saltou de 33% em 2023 para 87% em 2025. Escolas foram revitalizadas e ruas foram pavimentadas, e isso se vê no dia a dia. Parabéns, prefeito, parabéns a toda a equipe, e que Deus abençoe essa caminhada.
Há um estudioso do empreendedorismo, Daniel Isenberg, que defende que o empreendedor não nasce só de talento: ele nasce onde o ambiente e a cultura local ajudam. Onde a cultura valoriza quem faz, onde o poder público apoia, onde a escola ensina e onde as histórias de quem deu certo estão à vista de todos, o medo de empreender diminui. Se existe um lugar que prova isso, é Sumé. Viva Sumé, terra de gente que faz!
Inácio Feitosa
Empresário, educador e advogado, mestre em Educação pela UFPE. CEO da TED — Negócios e Empreendimentos e autor de seis livros sobre educação, direito e política. Conheça a trajetória →