Uma pequena nota, publicada na Folha de PE, quase passou despercebida entre tantas manchetes: uma escola pública do interior de Nova York vai receber “Sally”, uma professora-robô movida a inteligência artificial. O fato é real — confirmado por veículos como GovTech, NY Focus e Daily Wire —, e o distrito de Salamanca, numa reserva indígena Seneca, no oeste do estado, se tornará um dos primeiros do país a colocar um humanoide dentro da sala de aula.
Li a nota duas vezes e fui atrás do fato, verifiquei as fontes, e me permiti a inquietação de sempre — a mesma que me levou a escrever seis livros e a tratar de política educacional há mais de duas décadas, entre a sala de aula, o tribunal e a gestão pública.
Sally custou US$ 57.590 — menos do que o salário médio anual de um professor no estado de Nova York. Pele de silicone, cabelo comprido, mais de 100 idiomas, leitura de expressões faciais. O distrito garante que ela não vai substituir ninguém, que é “apenas” uma assistente de tutoria. Eu acredito na boa-fé do discurso. Não acredito na sua durabilidade. Toda tecnologia que entra “só para ajudar” cedo ou tarde vira estrutura — foi assim com o EaD, será assim com a IA em sala.
Salamanca é o começo simbólico de um movimento que vai se espalhar, dos Estados Unidos para o mundo, e, quando menos esperarmos, para escolas brasileiras também.
O contraste com o Sertão
Tragamos essa realidade para o nosso chão. No Sertão nordestino, a “novidade” tecnológica ainda não chegou — o problema segue mais básico e mais grave: o estagiário sozinho, sem supervisão, regendo uma turma inteira porque não há verba para contratar professor efetivo. Isso não é inovação disfarçada, como em Salamanca. É sucateamento nu, muitas vezes à margem da LDB.
Os americanos avançam rápido demais numa tecnologia que ainda precisa provar seu valor; nós tropeçamos no básico, que é garantir professor formado e valorizado em cada sala. São problemas de tamanhos diferentes, mas convergem para o mesmo alerta: o futuro vai exigir de nós decisões rápidas e bem fundamentadas.
O que não pode ser automatizado
Não vou fingir ingenuidade diante da inteligência artificial — seria hipócrita, já que ela integra projetos que coordeno e é tema recorrente nos artigos que assino. A IA vai ocupar cada vez mais espaço nas salas de aula brasileiras, porque resolve problemas reais de escala e de acesso. Fato não se combate com negação, se enfrenta com preparo.
Educação não é transmissão de conteúdo — é vínculo, é presença, é formação de caráter. E isso não se programa.
Mas defendo, sem meio-termo, que nada substitui o ser humano. Nenhum algoritmo replica o olhar de um professor que percebe a criança que chegou triste. Nenhuma rede neural segura a mão de um aluno prestes a desistir.
O caminho não é escolher entre tecnologia e humanidade, mas subordinar a primeira à segunda. A IA que temos que construir é a que amplia o alcance do professor, não a que o torna dispensável.
Como já disse, inspirado em Paulo Freire: não há tecnologia que substitua o encontro. Educação se faz de gente, com gente, para gente.
A pergunta que fica não é se a IA vai chegar às nossas salas de aula. Vai — e cada vez mais rápido. A pergunta é se teremos, até lá, professores valorizados e presentes o suficiente para que a tecnologia os complemente, e não os apague.
Inácio Feitosa
Advogado · Mestre em Educação (UFPE) · Presidente do Instituto IDR. Conheça a trajetória →