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As pessoas insatisfazíveis.

Inácio Feitosa Ago 2026 7 min de leitura

A primeira vez que escutei a expressão pessoas insatisfazíveis foi em Fortaleza. Morei lá por dois anos e meio, durante o período da pandemia. A palavra não veio de um livro ou de uma palestra, mas da experiência concreta, do cotidiano da gestão de pessoas, quando eu era sócio de uma instituição de ensino superior.

Este artigo nasce de um caso real. De um funcionário específico. Um profissional tecnicamente qualificado, que já havia passado por outros setores da empresa. Durante cerca de dois ou três meses sob minha gestão direta, buscamos atender, de forma objetiva e responsável, todas as suas demandas: remuneração, jornada de trabalho, condições operacionais e organização interna. Tudo o que era razoável, possível e institucionalmente correto foi feito. Ainda assim, nada era suficiente. Nada era reconhecido. Nada era motivo de gratidão.

Ele nunca esteve satisfeito. Nunca esteve grato. Foi para ele — e a partir dele — que comecei a refletir sobre esse tipo de comportamento. E a pergunta logo surgiu: será que existe apenas um insatisfazível? Ou eles estão por toda parte?

O que é gratidão, de fato

Muito se fala sobre gratidão, mas pouco se compreende o seu real significado. No senso comum, gratidão é confundida com submissão ou conformismo. Nada mais equivocado. Gratidão, sob a perspectiva ética e psicológica, é um sinal de maturidade emocional. É a capacidade de reconhecer o valor do que se recebe, mesmo quando a realidade não corresponde plenamente às expectativas pessoais.

A gratidão não elimina conflitos nem frustrações. Ela organiza a forma como o indivíduo se posiciona diante deles. Estudos da psicologia positiva indicam que pessoas gratas tendem a apresentar maior estabilidade emocional, relações mais saudáveis e melhor capacidade de enfrentamento das adversidades.

Não existe gratidão verdadeira sem autorresponsabilidade. Autorresponsabilidade é o reconhecimento de que cada pessoa responde por suas escolhas, reações e interpretações da realidade. Quando o indivíduo transfere sistematicamente a culpa para terceiros — o chefe, a empresa, o sistema ou a sociedade — ele abdica da própria autonomia moral. E quem abdica da autonomia dificilmente será grato.

A filosofia moral clássica e a psicologia contemporânea convergem nesse ponto. De Aristóteles a Viktor Frankl, há um consenso: a postura interior diante da vida é decisiva. Gratidão não é negação da realidade, mas escolha consciente de como enfrentá-la.

O verdadeiro oposto da gratidão

Costuma-se dizer que o oposto da gratidão é a ingratidão. Conceitualmente, isso é correto. Mas, na prática, o maior inimigo da gratidão não é a ingratidão pontual. É a insatisfação crônica.

A pessoa insatisfazível nunca está satisfeita. Quer um emprego, consegue, e reclama. Ajusta horário, reclama. Recebe reconhecimento, desqualifica. O padrão se repete. Nada basta. Nada preenche. A insatisfação deixa de ser reação a problemas reais e passa a ser um traço estrutural da personalidade.

É preciso fazer uma pergunta direta: você sabe o que é uma pessoa insatisfazível? Trata-se de alguém que encontra defeitos em tudo e em todos. Vive em inconformismo permanente, mas não no inconformismo produtivo que gera mudança. Trata-se de um inconformismo estéril, corrosivo e emocionalmente adoecedor.

Essas pessoas exigem o impossível, desvalorizam o possível e ignoram o razoável. O fracasso é sempre do outro. A frustração nunca é própria. Esse padrão é amplamente estudado pela psicologia como externalização persistente da culpa e do ressentimento.

Também no topo da pirâmide

Importante registrar: pessoas insatisfazíveis não estão apenas entre trabalhadores comuns. Elas estão em todos os espaços sociais, inclusive no topo do mundo empresarial. Há empresários que passam décadas buscando poder, status e riqueza. Quando alcançam tudo isso, encontram apenas vazio.

Esses empresários adoecem. Perdem a capacidade de gratidão, instrumentalizam pessoas e reduzem relações humanas a números e resultados. O outro deixa de ser sujeito e passa a ser objeto. Esse fenômeno é amplamente discutido na sociologia do trabalho e na psicopatologia organizacional.

Quando esse padrão se agrava, surgem comportamentos socialmente destrutivos: ausência de empatia, desprezo por limites éticos e indiferença ao sofrimento alheio. Não se trata de ambição saudável, mas de adoecimento psíquico que exige reconhecimento e, muitas vezes, acompanhamento profissional.

O problema das pessoas insatisfazíveis não está nas empresas, nos governos ou nas circunstâncias externas. Está nelas mesmas. É estrutural. Enquanto não houver reconhecimento desse padrão, não haverá mudança.

No ambiente corporativo e institucional, pessoas insatisfazíveis são nocivas. Desorganizam equipes, enfraquecem lideranças, deterioram o clima organizacional e desgastam pessoas e projetos.

Há uma verdade incômoda: pessoas insatisfazíveis raramente mudam. Não mudam porque não reconhecem o próprio adoecimento. E quem não reconhece um problema não busca transformação.

Por isso, o conselho é simples e responsável: afaste-se dessas pessoas sempre que possível. Não por arrogância, mas por preservação emocional, ética e espiritual. Pessoas insatisfazíveis estão em todos os lugares. Muitas vezes próximas fisicamente, mas distantes das pessoas, dos valores, dos ideais e, frequentemente, de qualquer sentido mais profundo de vida.

Gratidão constrói. Autorresponsabilidade sustenta. Insatisfação crônica destrói.

A escolha é clara: conviver com quem reconhece ou adoecer ao lado de quem nunca se satisfaz.

Inácio Feitosa

Advogado, escritor e fundador do Instituto IGEDUC. Conheça a trajetória →

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