Se você nunca esteve em Monteiro, deixe-me apresentá-la — e prepare-se para rever o que pensa que sabe sobre o sertão.
Monteiro fica no sul da Paraíba, na região do Cariri Ocidental, a um pulo da divisa com Pernambuco. É o maior município do estado em extensão, de horizonte largo. Quem chega esperando o clichê do sertão castigado se surpreende: aqui as noites refrescam de um jeito que ninguém acredita até sentir na pele, e o céu se abre num tapete de estrelas que as grandes cidades já não mostram. É o primeiro encanto. Não é o único.
O segundo é a gente. E aqui sou sincero com você, que é de fora: o monteirense vai te desarmar. É o “bom dia” gritado do outro lado da rua, a cadeira na calçada ao fim da tarde, o café que aparece antes que você peça, o abraço demorado, a conversa sem pressa. Existe aqui um astral que não se explica, só se vive: uma alegria que atravessou secas e floresceu no pouco. Quem visita, volta. E quem volta, entende.
Mas não vim só falar de afeto. Vim contar por que Monteiro merece o respeito do Brasil inteiro.
Cultura reconhecida pelo mundo
Comece pela cultura. Monteiro é a primeira cidade do Brasil reconhecida como Cidade Mundial do Artesanato pela Renda Renascença, título internacional concedido em 2022 por um conselho ligado à UNESCO. As mãos das nossas rendeiras produzem uma arte tão fina que desfilou na Europa. É a terra que embalou Flávio José, revelou o repentista Pinto do Monteiro e guardou o sopro de Zabé da Loca, a pifeira que encantou o mundo. Cantoria de viola, cordel, forró pé de serra: aqui a cultura popular não é folclore de vitrine, é identidade viva.
Berço de ministros da mais alta Corte
E há o que quase ninguém de fora sabe: Monteiro deu ao Brasil dois presidentes do Supremo Tribunal Federal — Luiz Rafael Mayer e Djaci Alves Falcão — e ainda um ministro do Superior Tribunal de Justiça que governou Pernambuco, Demócrito Reinaldo. Foi Rafael Mayer quem presidia o Supremo na promulgação da Constituição de 1988, a Carta Cidadã. Três filhos desta terra no ápice da Justiça brasileira. Poucas capitais podem dizer o mesmo. Não é acaso: é tradição de apreço pelo estudo, cultivada há gerações.
Tradição que continua. Monteiro abriga campi da Universidade Estadual da Paraíba e do Instituto Federal — que já forma não só técnicos, mas mestres, com pós-graduação própria. E na base, nossos índices de educação básica estão entre os melhores do estado. Aqui, educação é vocação antiga e projeto de futuro.
Vocação para empreender
E há mais, para quem gosta de números. Monteiro é líder nacional na produção de leite de cabra, sustentada por uma cooperativa de mais de quinhentos produtores que transformou a criação de subsistência dos avós num negócio moderno. Por isso a cidade figura entre as melhores da Paraíba para se empreender. E prospera há muito tempo: já na década de 1930, meu avô, Inácio Feitosa, mantinha aqui uma concessionária da Ford. O empreendedorismo é da natureza de Monteiro.
Porta d’água do sertão
Foi também por Monteiro que as águas do Rio São Francisco entraram na Paraíba pela primeira vez, em 2017, pelo Eixo Leste da Transposição. Somos, literalmente, a porta por onde a água — e a esperança — chega ao semiárido. E em saúde é referência para todo o Cariri: seu hospital regional atende dezenas de municípios vizinhos, hoje até com unidade neonatal.
Terra farta, gente calorosa, cultura reconhecida no mundo, berço de ministros da mais alta Corte, líder nacional na sua vocação, porta d’água do sertão.
Isso é Monteiro. Não a imaginada com pena, mas a real, de conquistas, de nomes e de futuro.
Por isso, a você que é de Recife, do Sul, de qualquer canto do país, faço um convite e uma promessa. O convite: venha. Suba ao Cariri, sinta o frescor da noite, ouça a viola, olhe nos olhos da nossa gente. A promessa: você vai sair daqui diferente. Vai entender por que quem é monteirense — de nascimento ou, como eu, de raiz e de coração — carrega esse nome com o peito estufado.
Monteiro não é uma cidade pequena do interior. É uma grande cidade que o Brasil ainda vai descobrir. E eu tenho a honra de ser um dos que a apresentam ao país.
Inácio Feitosa
Advogado, mestre em Educação pela UFPE e escritor. Conheça a trajetória →