Levado pela curiosidade, decidi pesquisar a fundo a encíclica mais recente do Papa sobre inteligência artificial. Fui atrás do texto, dos documentos que a antecederam e das críticas que já recebeu — e o que encontrei me levou a atravessar, na prática, mais de um século de magistério católico.
Em pouco mais de 130 anos, a Igreja produziu três documentos que, lidos como um só argumento, revelam mais do que pretendiam dizer isoladamente: a Rerum Novarum (1891), a Antiqua et Nova (2025) e a Magnifica Humanitas (2026). O primeiro respondeu à Revolução Industrial; os dois últimos tentam responder à revolução da inteligência artificial. Nessa pesquisa, uma das primeiras coisas que me chamou atenção foi a diferença de hierarquia entre eles: a Rerum Novarum e a Magnifica Humanitas são encíclicas, assinadas pessoalmente pelo Papa; a Antiqua et Nova é apenas uma nota doutrinal, aprovada, não assinada, por Francisco.
E é justamente o texto de menor peso formal que, segundo boa parte da crítica especializada que fui conferir, foi o mais preciso ao nomear riscos como a inteligência artificial geral — enquanto a encíclica mais recente, de maior autoridade, soa por vezes cautelosa demais diante da magnitude do problema.
Uma diferença de tom que reflete quem fala
Ao aprofundar a leitura, percebi que essa diferença de tom não é acidente — reflete o perfil de quem fala. Leão XIII foi o fundador da Doutrina Social moderna, buscando uma terceira via entre capitalismo liberal e socialismo.
Francisco, sob cujo pontificado nasceu a Antiqua et Nova, tinha perfil progressista e pastoral, o que explica a linguagem direta da nota sobre concentração de poder e vigilância digital. Já Leão XIV, autor da Magnifica Humanitas, é descrito como moderado e conciliador — e essa moderação ajuda a entender por que seu texto, apesar de mais solene, é acusado de tratar com ênfase excessiva problemas já conhecidos (viés algorítmico, consumo de água e energia) e com pouca urgência o que realmente importa: a perda em massa de postos de trabalho e os riscos de sistemas cada vez mais autônomos.
A nova moeda do século
Quanto mais eu avançava, mais uma pergunta pessoal foi tomando forma, além da que os documentos oferecem. Cada era definiu sua forma de riqueza — a terra, o sal, o petróleo, o conhecimento acumulado. Estamos diante de uma nova moeda, que não é nenhuma dessas: é o domínio sobre uma inteligência que não é humana, mas que decide cada vez mais sobre o que é humano — quem tem crédito, quem tem emprego, quem é ouvido, quem é avaliado. E essa desigualdade não tem uma única camada, mas duas.
Há os que simplesmente não têm acesso à IA — a exclusão digital clássica. E há um segundo grupo, mais silencioso e crescente, que usa a tecnologia todos os dias sem ter qualquer controle sobre como ela decide a seu respeito: o motorista de aplicativo, o atendente avaliado por algoritmo, o profissional liberal competindo com geração automática de conteúdo. Esse segundo grupo é, a meu ver, o que menos atenção recebe — e o que mais deveria receber.
A Rerum Novarum denunciava a assimetria entre patrão e operário; hoje ela se repete, mas sem sequer a possibilidade de organização sindical clássica, porque o “patrão” é cada vez mais um sistema, não uma pessoa ou empresa identificável com quem negociar. Foi assim, seguindo essa curiosidade, que cheguei a uma conclusão que hoje carrego como convicção pessoal:
Essa divisão — entre quem domina a IA e quem é dominado por ela — é, a meu ver, o eixo central da desigualdade do nosso século.
...ultrapassando a clássica divisão entre capital e trabalho. A assimetria não é apenas econômica: é cognitiva e decisória. Quem controla os modelos decide não apenas quem ganha mais, mas quem tem sua realidade avaliada por sistemas que a maioria jamais entenderá em profundidade suficiente para contestar.
Termino esta reflexão com a mesma curiosidade com que a comecei, agora transformada em pergunta que não me sai da cabeça: sem democratização real do entendimento crítico sobre esses sistemas — não apenas do acesso técnico a eles —, o mundo caminha para uma nova aristocracia, cuja riqueza não se mede em terra, sal ou capital financeiro, mas em capacidade de programar, treinar e controlar aquilo que decide pelos outros. É essa a pergunta que a Magnifica Humanitas ainda não fez com a radicalidade que o momento exige — e que, depois dessa busca, sinto que cabe a mim continuar fazendo.
Inácio Feitosa
Advogado, mestre em Educação pela UFPE, escritor e educador. Conheça a trajetória →